O Brasil avança no combate à Aids?

17/12/2012 14:33
De acordo com artigos publicados na Folha de S. Paulo, Caio Rosenthal, médico e membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, e Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP e professor da Faculdade de Medicina da USP, acreditam que o Brasil não avança no combate à Aids, enquanto Alexandre Padilha, ministro da saúde, acredita que sim.

O Brasil avança no combate à Aids?

Resposta: NÃO.

Caio Rosenthal e Mário Scheffer:

Retrocesso e divulgação seletiva de dados

Enquanto o mundo vislumbra a erradicação do HIV e uma geração livre da Aids, o Brasil retrocede no combate à doença, vive da divulgação seletiva de dados e do ufanismo diante de uma epidemia supostamente controlada.

A Aids está fora de controle no país em várias regiões, em grandes centros e em grupos vulneráveis.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, um em cada seis homossexuais está infectado pelo HIV, prevalência maior que em populações africanas. Em resposta, silêncio e censura: a campanha de prevenção dirigida aos gays no carnaval deste ano foi vetada pelo governo federal para agradar parlamentares fundamentalistas. Contaminar com religião a saúde pública é um dos sintomas da falência da política outrora exemplar.

Sem diagnóstico, até hoje milhares de brasileiros com HIV chegam tarde aos serviços de saúde, com risco de morte em razão do atraso no início do tratamento.

Reduzida praticamente a zero em países como Botsuana e Suazilândia, a transmissão do vírus da Aids da mãe para o bebê persiste no Brasil, vergonha nacional que expõe falhas inadmissíveis do pré-natal.

São mais de 30 mortos de aids por dia no país, situação tão banalizada quanto a atual onda de homicídios. No Norte, Nordeste e Sul morrem hoje mais pessoas de Aids do que na época em que não existiam os medicamentos antirretrovirais.

Sem apoio, organizações não governamentais fecham as portas ou paralisam atividades de prevenção, acolhimento e defesa de direitos.

Não bastasse o fato de governos estaduais e prefeituras deixarem de usar milhões de reais repassados pelo Ministério da Saúde para ações de combate à Aids, um movimento de secretários de saúde tenta legitimar o desvio de recursos para outros fins.

Além dos medicamentos garantidos pelo SUS, sempre se destacaram os serviços e o pessoal comprometidos com o acompanhamento dos pacientes. Pois nossos hospitais e ambulatórios vêm sendo entregues a organizações privadas e estão superlotados, com alta rotatividade de profissionais, com ameaça de fechamento de leitos, sem especialistas e sem o vínculo médico-paciente essencial ao tratamento de uma doença crônica.

Por tudo isso, mais de 400 pesquisadores, ativistas e entidades divulgaram manifesto pedindo mudanças nos rumos do programa brasileiro, crítica ecoada por especialistas estrangeiros durante a última Conferência Internacional de Aids, em Washington.

Veio também desse evento o otimismo em relação à cura e a convicção de que as ferramentas hoje disponíveis, combinadas com a promoção de direitos humanos, podem evitar novas infecções, melhorar a saúde das pessoas com HIV e salvar vidas em escalas jamais imagináveis.

O Brasil precisa dizer se fará parte da virada do jogo contra a Aids, o que depende de uma politica corajosa que assuma a realidade da epidemia e articule melhor prevenção, teste e tratamento.

O país tem condições de dobrar o numero de pessoas em terapia antirretroviral, chegando a 500 mil pacientes, de renovar as campanhas preventivas paradas no tempo, de massificar o acesso a preservativos, de fazer chegar o teste rápido de HIV às populações mais afetadas, de incluir, em complemento à prevenção, o uso de medicamentos antes ou depois da exposição sexual ao vírus.

É urgente recuperar a qualidade dos serviços públicos especializados em Aids, fortalecer as ONGs, retomar a quebra de patentes e ampliar a produção nacional de antirretrovirais genéricos.

Sem ousadia, sem novos e excepcionais compromissos políticos, o Brasil perderá essa luta.

CAIO ROSENTHAL, 63, é médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

MÁRIO SCHEFFER, 43, é presidente do Grupo Pela Vidda-SP, professor da Faculdade de Medicina da USP e autor de "Coquetel: a Incrível História dos Antirretrovirais e do Tratamento da Aids no Brasil" (Hucitec).



O Brasil avança no combate à Aids?

Resposta: SIM.

Alexandre Padilha:

Mais medicamentos e prevenção

No marco do Dia Mundial de Luta Contra a Aids, o Ministério da Saúde divulga os avanços recentes e os desafios que ainda temos na resposta brasileira à epidemia.

Parou de crescer o número de casos novos registrados anualmente, mas no patamar ainda preocupante de 38 mil anuais. Reduzimos fortemente a transmissão da gestante para o bebê e a taxa de mortalidade por Aids nos últimos anos.

Ampliamos e antecipamos o acesso aos medicamentos antirretrovirais gratuitos e as ações de prevenção. Dado inédito mostra que, no Brasil, 70% dos pacientes que iniciam tratamento têm carga viral indetectável: vivem por mais tempo e reduzem o risco de transmissão.

É hora de encararmos de frente os novos desafios. Em cinco anos, aumentamos de 32% para 37% o numero de pessoas que descobrem estar infectadas na fase inicial e reduzimos de 32% para 29% aqueles que começam o tardiamente o tratamento: melhor que as médias internacionais ou mesmo dos EUA.

Nesse período, saímos de 62% para 84% das gestantes realizando teste de HIV no pré-natal, o que já é impacto do programa Rede Cegonha. Mas para o Ministério da Saúde, apesar do avanço, esses números ainda são inaceitáveis.

Uma em cada quatro pessoas que vivem com o HIV no Brasil desconhecem essa condição - ou seja, estima-se que 135 mil brasileiros não sabem que são soropositivos, implicando início tardio do tratamento e aumento das chances de transmissão do vírus.

Mais do que uma prioridade, o diagnóstico precoce do HIV tem de se tornar uma rotina para os serviços e profissionais de saúde.

O Ministério da Saúde promove desde o dia 22, junto com Estados, municípios e sociedade civil, uma intensa mobilização nacional de prevenção e testagem do HIV, sífilis e hepatites virais, cujo ápice é este 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Nosso foco está nos 2.200 municípios que concentram 90% dos casos da doença.

De 2005, quando o teste rápido foi implantado no país, a 2011, houve aumento de 340% no numero de testes disponibilizados -de 528 mil para 2,3 milhões. Em 2012, o Ministério da Saúde distribuirá 2,9 milhões de testes rápidos para detecção do HIV.

Hoje, no Brasil, dos novos casos de Aids registrados, pelo menos metade são de jovens gays de 15 a 24 anos. É uma geração que tem a informação das práticas seguras, mas que não transforma este conhecimento numa atitude de prevenção. Talvez por não terem convivido com a morte de ídolos, parentes e conhecidos, como ocorreu no início da luta contra Aids, esses jovens estão menos sensíveis aos riscos da doença.

Tocá-los para o fato que a Aids não tem cura e que o aumento na sobrevida se dá as custas de um tratamento duro -que impõe mudanças de hábitos, possíveis efeitos colaterais e sofrimento- não pode ser dispensado.

O Ministério da Saúde busca sensibilizar esta geração com novas campanhas de comunicação, fortes ações nas redes sociais e realização de atividades em rua, festas e locais de grande concentração. É preciso adotar estratégias diversas, pois há hoje epidemias dentro da epidemia de Aids.

Fica a questão para todos nós. Se você está na dúvida, por que ainda não fez o teste? Se testar, se cuidar e usar camisinha é responsabilidade de cada um de nós. É difícil tomar a decisão, mas no Brasil sabemos que, negativo ou positivo, todo cidadão tem direito ao tratamento e acompanhamento gratuitos.

ALEXANDRE PADILHA, 41, médico infectologista, é ministro da Saúde.


Fonte: Folha de S. Paulo, Tendências/Debates, 01/12/2012.

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